domingo, 21 de junho de 2015

curriculum vitae

Tenho 31 anos.
Sou pobre.
Tonto.
E barato.
Por vezes, palhaço.
Por vezes, me faço.

H. L. C.

at times

tu
tragada
pela garganta-sem-volta
do niagara falls
era um dia de sol
tudo o que sei

H. L. C.

da série 'meus poemas quase-póstumos'

Cigarros na janela do 8º andar

Pensamos juntos em liberdade
Aquela liberdade das cinzas
que se desprendem das pontas dos cigarros
ainda acesas
e arrebatadas pelo vento
desaparecem no ar
para daí voltar
em algum lugar
em fogo vivo

H. L. C.

ponto seguimento

Os olhos da moça
de terninho
azul marinho
constroem um arranha-céu
de sedução
sobre a minha cabeça.
Ai de mim!
Meu terrível medo de alturas...

H. L. C.

Qualquer coisa

Tenho comido
deliciosas sopas de esperança,
agora que aprendi a ter pança.

H. L. C.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Garotinha de trinta anos

De súbito.
Ela, um súbito.
Uma coelha de pernas longas.
De traços longos.
Pintada em nanquim.

H. L. C.

p/ Milene

Cervejas alemãs e costas rabiscadas

A folha de papel em branco
desabou em pranto
Pois eis que a paloma pequena
Resolveu não voar para Terena
Decidiu ficar
E comprar um pote de doces coloridos
E comê-los todos
como a brincar de ter um marido
Que achasse graça de ela achar graça em gostar de presentear meias coloridas
Pois vestida em meias coloridas
Ela escreveria até centenas de rabiscos
Jogaria o guarda-roupas pela janela
E livrar-se-ia dos duzentos pares de sapatos desconfortáveis
E descobria até quem sabe o agridoce de viver a própria vida

H. L. C.

domingo, 14 de junho de 2015

Quase-inverno

No deitar do sol
ela surge.
Sempre com um
Buquê de coisas para contar.
E eu logo tranco, no meu baú de ferro, toda a matilha de adjetivos que ela provoca.
Salvo-me, assim.
Para mais adiante morrer.
Uma.
E outras vezes.

H. L. C.

mise-en-scene

Tuas pernas nuas
pelas ruas
a contar do filme visto no cinema
do roteiro feito para daí loguinho
uma garrafa de vinho
e tuas argolas já perdidas
no oculto da cama

H. L. C.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Escadaria

No domingo, correremos na praia pela manhã
Mais tarde, a verei maquiar-se para mim
Ela que tem olhos de abelha
Ela que chora perfume
Ela que gosta de viajar de metrô enquanto faz croquis de pontilhismo
Ela que gosta de anúncios publicitários com interrogações
Ela que tem unhas quase pintadas de café
Ela cujos olhos jamais estão monossilábicos

H. L. C.

Don't be afraid of me

De noite, atravessarei os muros de tua casa
E terei tudo de ti
E entenderei mais dos teus olhos
Por que há tanto açúcar neles?
Tu me ensinarás a te despir de todas as peles
Eu atravessarei como nunca os muros de tua casa
E depois, te levarei a passear de barco pelo lago
E não terás medo
Andaremos pela tua cidade cinza
E não permitirei que nada te atropele
Andaremos por todas as ruas
Ruas abarrotadas de carros antigos
As ruas da tua cidade cinza
O que pensas de tua cidade cinza?
Entrarei contigo na pequena igreja do teu povo
Lá onde existe um velho padre parecido com Einstein
E assistiremos comendo pipoca aos casamentos de quinze casais
Depois, chorarei ao teu colo
E pedirei teus afagos
Porque tens muitos afagos
E abraçados nos beijaremos no bosque
E eu voltarei a sorrir
E, já mais tarde, novamente estaremos sobre o lago
E eu sempre irei além dos muros de tua casa
Velarei o teu sono, vestido de cavaleiro medieval
E admirarei teus cabelos soltos partidos ao meio
Enquanto sonhas
Com a tua cidade cinza

H. L. C.



terça-feira, 2 de junho de 2015

Linhas aéreas

Meia noite.
Três garrafas de vinho formam uma orquestra.
Ouve- se "shadows in the night".
Ele (brincando de ser Bob Dylan) - "stay with me".
Ela (cheirando a Janis Joplin) - "piece of my heart".
Sentados no píer, os dois, balançando as pernas no ar.

P/ Paloma
H. L. C.

Da série "meus poemas quase póstumos"