gótica, neoclássica,
eclética e quase barroca,
houve uma turista
que, caminhando sem rumo
pelos jardins do Père-Lachaise,
meteu-se a falar com Edith Piaf,
que logo a apresentou a Jim Morrinson e Molière.
e, já todos muito camaradas,
pensaram esticar até ao Jardim de Luxembourg,
para quem sabe,
em dia de sol forte,
arriscar a visão de um topless,
deviam antes passar,
é claro, numa padaria
a fim de comprar
a baguete recheada preferida de Edith.
se puseram a caminhar...
mas, poucos metros à frente,
acredite,
diante de um túmulo simples e anônimo
esbarraram com três cavalheiros
e mais uma dama,
um quarteto jogando damas ao léu,
eram Balzac, Proust, Chopin e Sarah Bernardt.
ora bem que mal deram-se aos cumprimentos,
surgiu um esbaforido Oscar Wilde
convidando a todos à área dos túmulos de música,
ciências e literatura,
afinal era sábado,
dia de festa,
até às 17h30,
de entrada gratuita.
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Les philosophes
de pernas de fora
de pernas longas e magras de fora
sob um pedacinho de vestido azul-claro
procurando um free wi fi zone
ela é o amor
esbelta como uma clarineta
(dessas sempre muito vaidosas de tocar Louis Armstrong)
e com o seu sorriso de doce criança inteligente
perguntando ao vento
"por que não morar num sótão no futuro"
ou "por que amanhã mesmo não estrear
a sua camisa zebra combinando
com os novos sapatos vermelhos"
ou "por que não fazer um curso de funambulismo"
ou "por que não soltar os cabelos
vestir belas meias estranhas
e correr a filosofar
deliciosamente
diante de um miche poilâne"
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
de pernas longas e magras de fora
sob um pedacinho de vestido azul-claro
procurando um free wi fi zone
ela é o amor
esbelta como uma clarineta
(dessas sempre muito vaidosas de tocar Louis Armstrong)
e com o seu sorriso de doce criança inteligente
perguntando ao vento
"por que não morar num sótão no futuro"
ou "por que amanhã mesmo não estrear
a sua camisa zebra combinando
com os novos sapatos vermelhos"
ou "por que não fazer um curso de funambulismo"
ou "por que não soltar os cabelos
vestir belas meias estranhas
e correr a filosofar
deliciosamente
diante de um miche poilâne"
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
Voilà ce que tu m’as demandé!
segurando o pacotinho dos livros novos,
senta-se no Le Moulin de La Galette,
profunda e com o olhar perdido -
imaginando a intensidade dos olhinhos verdes
de uma madmosselie,
de uma madmosselie,
a divertir-se pelo salão de bailes
do século XIX,
do século XIX,
com suas
camaradas.
- e já depois,
de mãos dadas
à sua nova amiga de infância imaginária,
à sua nova amiga de infância imaginária,
já estão a correr em disparada
e gargalhadas
pela Rue Lepic,
e gargalhadas
pela Rue Lepic,
entrando no Café des Deux Moulins,
e rapidamente pedindo doces, queijos
já espinafra
a impossível comparsa,
que, de figurante, passa
em teimosia a desenhar no guardanapo
a impossível comparsa,
que, de figurante, passa
em teimosia a desenhar no guardanapo
uma exposição infindável
de frutas, verduras,
flores, flocos,
frango assado,
flores, flocos,
frango assado,
dentre outras cousas...
lembra-se de mim, por fim,
e com suas mãozinhas delicadas,
com unhas pintadas
de rosa-claro,
de rosa-claro,
e com a boca,
a boca tão bonita
de lábios anjo-diabo,
já quase toda ocupada
por um pão doce,
manda-me um “voilà!”,
desses tipo um
"je ne sais pas, monsieur!"
desses tipo um
"je ne sais pas, monsieur!"
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
da série 'seus suaves relatos de maio'
domingo, 22 de maio de 2016
uma sílaba
domingo,
de-manhã-cedinho,
se espalhando pelo Boulevard Raspail,
de barraca em barraca,
sob o som de 'la vie en rose',
entre queijos, doces e chocolates,
ali está uma linda mulher,
sorrindo uma sílaba qualquer,
beliscando coisinhas aqui-acolá,
fazendo aquele-pedacinho-da-velha-Paris corar.
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
de-manhã-cedinho,
se espalhando pelo Boulevard Raspail,
de barraca em barraca,
sob o som de 'la vie en rose',
entre queijos, doces e chocolates,
ali está uma linda mulher,
sorrindo uma sílaba qualquer,
beliscando coisinhas aqui-acolá,
fazendo aquele-pedacinho-da-velha-Paris corar.
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
sábado, 21 de maio de 2016
Saint Émilion
escorrem vinhos
dos teus lábios...
eis a tua boca:
cheia de rubros utensílios
amorosos.
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
dos teus lábios...
eis a tua boca:
cheia de rubros utensílios
amorosos.
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
Rue Mouffetard
contigo,
carregas aí, de maneira rafeira,
as minhas saudades, pelos corredores da Sorbonne.
tens-me!
e eu não tenho a ti.
mas, mesmo assim, brejeira,
louca-fagueira,
já tipicamente ébria francesa,
dou-te o meu conselho insone:
entre os tais sorvetes da Amorino
e os tais crepes de nutella -
não te esqueças de mim,
e nem me tragas tu gravatas amarelas!
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
carregas aí, de maneira rafeira,
as minhas saudades, pelos corredores da Sorbonne.
tens-me!
e eu não tenho a ti.
mas, mesmo assim, brejeira,
louca-fagueira,
já tipicamente ébria francesa,
dou-te o meu conselho insone:
entre os tais sorvetes da Amorino
e os tais crepes de nutella -
não te esqueças de mim,
e nem me tragas tu gravatas amarelas!
H. L. C.
da série 'seus suaves relatos de maio'
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
primeiro abraço
o amor num único traço
é o abraço
os dois encaixados
tu, a face no meu ombro
eu, o nariz na tua nuca
os olhos fechados
a carne trêmula
mas já em paz
os nossos cheiros
o mundo pára
minha boca já são os "sulquinhos" do teu pescoço
tua orelha já se torna o meu rosto
somos dois em um nó
somos um só
e na eternidade desse abraço
por incríveis cinco minutos
moramos em nós
e fomos dois-felizes
p/ Adriana
H. L. C.
é o abraço
os dois encaixados
tu, a face no meu ombro
eu, o nariz na tua nuca
os olhos fechados
a carne trêmula
mas já em paz
os nossos cheiros
o mundo pára
minha boca já são os "sulquinhos" do teu pescoço
tua orelha já se torna o meu rosto
somos dois em um nó
somos um só
e na eternidade desse abraço
por incríveis cinco minutos
moramos em nós
e fomos dois-felizes
p/ Adriana
H. L. C.
vista d'olhos
quem sabe lá detrás daquela serra,
da serra de Eça de Queirós,
também eu encontre o meu pedaço de chão?
e lá queira viver
sem avistar pé de gente.
ah!, Queirós, gigante português,
de que doença morrerei eu?
amigo meu,
estou doente!
a morte me assombra e me desterra,
roubando-me a paixão
do querer-ser,
embotando-me em burguês.
amigo meu,
estou doente!
e de que doença morrerei eu?
será algo feroz?
bactéria atroz?
loucura, de quando em vez?
então, assim é que é:
vou-me a comprar uma quinta naquela serra,
do outro lado da serra de Eça de Queirós,
o gigante português.
porque estou doente... não vês?
e lá, de gente não quero avistar pé.
estou doente!
e a morte me assombra e me desterra.
quando mais não seja a fé,
da minha morte morrerei eu?
será afasia?
constipação?
pulmão?
loucura bravia?
estou doente!
e do outro lado da serra verde farei uma casinha
e darei figos para a fêmea andorinha
estou doente de contente!
pois a morte assombra o meu viver ramerrão.
mas, de que mal padeço?
será pulmão?
o coração?
a cabeça, dor de dente?
oh!, gigante português,
amigo meu,
que inveja que tenho
daquilo que a vida te deu,
sei que tu sabes do que estou a dizer.
farei a minha casinha na serra:
plantarei milho,
terei vinho,
e não quero gente ao pé de mim.
H. L. C.
Da série 'meus poemas quase-póstumos'
da serra de Eça de Queirós,
também eu encontre o meu pedaço de chão?
e lá queira viver
sem avistar pé de gente.
ah!, Queirós, gigante português,
de que doença morrerei eu?
amigo meu,
estou doente!
a morte me assombra e me desterra,
roubando-me a paixão
do querer-ser,
embotando-me em burguês.
amigo meu,
estou doente!
e de que doença morrerei eu?
será algo feroz?
bactéria atroz?
loucura, de quando em vez?
então, assim é que é:
vou-me a comprar uma quinta naquela serra,
do outro lado da serra de Eça de Queirós,
o gigante português.
porque estou doente... não vês?
e lá, de gente não quero avistar pé.
estou doente!
e a morte me assombra e me desterra.
quando mais não seja a fé,
da minha morte morrerei eu?
será afasia?
constipação?
pulmão?
loucura bravia?
estou doente!
e do outro lado da serra verde farei uma casinha
e darei figos para a fêmea andorinha
estou doente de contente!
pois a morte assombra o meu viver ramerrão.
mas, de que mal padeço?
será pulmão?
o coração?
a cabeça, dor de dente?
oh!, gigante português,
amigo meu,
que inveja que tenho
daquilo que a vida te deu,
sei que tu sabes do que estou a dizer.
farei a minha casinha na serra:
plantarei milho,
terei vinho,
e não quero gente ao pé de mim.
H. L. C.
Da série 'meus poemas quase-póstumos'
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
sambinha em levada de caixa básica (para quinta-feira de carnaval)
é carnaval
e no Tribunal
prometi
um samba
pra Lídia Ravena
de nome Açucena
que mora em Ipanema
que é porta-bandeira
da jovem mangueira/
e "matei a pau!"
H. L. C.
da série 'poesia em degrau'
e no Tribunal
prometi
um samba
pra Lídia Ravena
de nome Açucena
que mora em Ipanema
que é porta-bandeira
da jovem mangueira/
e "matei a pau!"
H. L. C.
da série 'poesia em degrau'
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
olhos verdes-violino
meio da tarde
uma margarida branca
vestida de branco
com cabelos cor de milharal em tempos de colheita
dois olhos verdes
meio da tarde e um pouquinho mais
e observamos a bela Maria com o menino Deus ao colo
e um violino tocando a música de Johann Sebastian Bach
e duas almas se desprendem dos corpos
para lá no longe
no mais do longe
pousarem em castelos de cristais
duas almas descalças
de faces simétricas
conexas
paradoxais
H. L. C.
da série 'de quando minha casa era o teu ateliê'
uma margarida branca
vestida de branco
com cabelos cor de milharal em tempos de colheita
dois olhos verdes
meio da tarde e um pouquinho mais
e observamos a bela Maria com o menino Deus ao colo
e um violino tocando a música de Johann Sebastian Bach
e duas almas se desprendem dos corpos
para lá no longe
no mais do longe
pousarem em castelos de cristais
duas almas descalças
de faces simétricas
conexas
paradoxais
H. L. C.
da série 'de quando minha casa era o teu ateliê'
carta minha, doutro dia, ao Rubem Braga:
Braguinha, etílico amigo,
trabalho ora num projeto,
que nem te conto:
se tudo der certo,
arrumo das malas e pronto!
vou-me ter aí, perto de ti,
que nem te conto:
se tudo der certo,
arrumo das malas e pronto!
vou-me ter aí, perto de ti,
já, a adquirir
uma cobertura das boas, no Leblon!
isto dito,
meu praça,não disfarça,
uma cobertura das boas, no Leblon!
isto dito,
meu praça,não disfarça,
e cuide logo de ir avisando às meninas,
tuas vizinhas,
especialmente aquela altinha-engraçadinha,
que coisinha!
aqui? vai tudo azul, meu chapa!
sossegue!
dar-te-ei notícia...
tuas vizinhas,
especialmente aquela altinha-engraçadinha,
que coisinha!
aqui? vai tudo azul, meu chapa!
sossegue!
dar-te-ei notícia...
sempre seu,
seu amigo do passado,
H. L. C.
poema da discórdia
à noite,
quando já um outro
em tua cama,
fingirás que o ama,
ou mentirás poder amá-lo.
e termina-se aqui este poema:
quase sem rima!
um pouco sem mim.
H. L. C.
da série 'carbono 14'
quando já um outro
em tua cama,
fingirás que o ama,
ou mentirás poder amá-lo.
e termina-se aqui este poema:
quase sem rima!
um pouco sem mim.
H. L. C.
da série 'carbono 14'
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