domingo, 5 de junho de 2016

borboleta

radiante quando pousas em minha mão.
raio de vida.
leve e colorida.
borboleta.
atrevida.
aonde vais agora, depois de teres vindo daquele caule?
de quantos sóis és feita?
satisfeita?
onde arranjaste este cheiro de flor-princesa?
de quem roubaste esta língua-acesa?
que lindo é o teu sorriso-coração.
e teus olhos-verdes-vale.
borboleta lisonjeira.
livre como a nuvem passageira.
hoje, que é feriado,
devias comigo ficar acá,
um bocado...

H. L. C.



sexta-feira, 3 de junho de 2016

pois morreste!

morreste!
que triste...
fizeram de tua bonita casa
um lugar para casamentos.
que lamento!
tudo podias perdoar,
mas não essa traição.
da mansão de outrora,
só restou o retrato do sentimento,
daqueloutro tempo.
hoje, por mais que lá desfilem
fraques e vestidos de gala
dessa  sociedade,
vaidade!
são todos esses corações alugados!
gente?, nunca mais houve no teu palacete.
verdade?, quem já lá a perdeu?
da tua casa, o brilho foi roubado.
as janelas usurpadas.
tornaram os corredores tão frios.
as escadas nuas e escorregadias.
e das árvores, as folhas são secas, tão secas...
não há mais cheiro de terra no jardim,
a grama sintética.
os vizinhos são patéticos,
debiloides,
rejeitos de espermatozoides.
bem diferentes da camaradagem de antes.
na tua casa,
que não é mais a tua casa,
não há mais abraços,
afagos,
café da manhã com suco de tamarindos frescos
e churros... não,
na tua casa não há mais
os "teus" felizes que dormem e acordam
e que, por vezes, no domingo à tarde,
caminhavam até o cinema do bairro.
a tua casa hoje é habitada
em meros pedaços do dia e da noite
por uma gente
pançuda e
suada,
vulgarizada.
a tua casa que antes tocava boa música,
e era eloquente,
hoje é estridente,
o piso que um dia foi de madeira,
é de línguas de serpentes.
a tua casa que era de arquitetura tão bonita,
e que tinha saída para infinitas ruas,
agora está cheia de gruas,
microfones,
bandeiras,
luzes que não são luzes.
a casa que um dia foi tua
hoje é carapuça
que serve a idiotas...
pois morreste!

H. L. C.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

composição para não ter ciumes

nada como o sorriso de Ana Maria,
num café,
sentada, tomando café.
o sorriso de Ana Maria, de pé,
no trabalho, tomando café.
nada como o sorriso de uma Ana Maria qualquer,
mesmo que de Ana Maria não tenha nem o nome,
mas só o café.

H. L. C.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

jazz para não voltar


então, disse-lhe:
por favor! por favor!
onde estão os meus cigarros, baby?
pense bem. olhe para mim.
devolva-os. devolva-os.
eu estarei pronto.
sim. indo para casa.
então, disse-lhe:
devolva-os, baby, devolva-os.
olhe para mim.
onde estão os meus cigarros?
estou pronto, baby.
onde estão os meus cigarros?
pense bem, baby.
eu gosto de você livre.
mas, devolva-me os cigarros.
baby, uma nuvem de irritação já começa a pairar sobre os meus nervos.
então, disse-lhe:
olhe para mim.
obrigado, baby.
agora, devolva os meus cigarros.
não! aí já procurei. não estão!
eu estarei pronto num minuto, baby.
em um minuto voltarei à casa.
tenho aqui algum trabalho para a madrugada.
e uns rabiscos, coisa tola.
eu gosto tanto de você livre, mas,
onde estão os meus cigarros?
baby, uma nuvem de irritação já começa a tomar conta dos meus dedos.
então, disse-lhe:
quero lhe levar às alturas, baby.
agradeço sua preocupação.
mas...
aí, já procurei.
aí, não estão.
então, você quer acabar com todos os meus sonhos, baby?
hoje à noite, eu lhe levaria às alturas...
então, você tem um sonho, garota?
onde estão meus cigarros?
então...
vamos...
já num instante estarei em casa, baby.
tenho uns rabiscos tolos aqui nos bolsos.
agradeço a preocupação.
você já teve um sonho tirado de você, garota?
então,
devolva-me.

H. L. C.

da série 'carbono 14'


domingo, 29 de maio de 2016

bons sonhos, matrioska!

fim de tarde
frio da tarde
ela maquiando o rosto branco
tem os cabelos soltos
tem as suaves chamas nos olhos verdes
tem a pele doce de nectarina
e a fome espontânea de uma menina
quer sopa
quer pão
quer vinho
quer carinho
quer esquecer dos jornais
dos sites
das redes sociais
de todas as formas de hipocrisia
e da gente boba
quer fazer amor ouvindo Aretha Franklin
e quer dormir quentinha e quietinha
e sonhar que é a menor das matrioskas
dentro de dez outras matrioskas
protegida.

H. L. C.

da série 'carbono 14'

sábado, 28 de maio de 2016

9 martelos

'tudo ao seu tempo,
ô, guri!',...
dizia-me o velho,
do alto de seu castelo.
... 'não vês o clero? e o Agnelo?
tudo compraram de ouro amarelo!'...
 - e eu? que farei eu, velho?
... 'tu? continua aí,
com teus 9 martelos.'

H. L. C.

da série 'meus poemas quase-póstumos''

gracejo nº 2

Maroca
velhinha coroca.
que não gosta de mim.
nem de rima.
só de pipoca.

H. L. C.

especialmente

como dantes,
vamos passear
num lugar qualquer.
comer pão-de-alho
num lugar qualquer.
depois,
vamos ao teu playground,
até noite bem tarde,
conversar,
sonhar,
calcular formigas voadoras.
resgatar duas crianças na casa-da-árvore.
tomar chocolate.
e curar as feridas
com mertiolate.

H. L. C.

da série 'carbono 14'

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Знаю, красавица!


do teu dia.
dos teus patins
no meio da floresta,
quando em pequena.
de como nasceu tua estúpida beleza
vestida de couro james dean.
do buquê de flores azuis.
do teu vestido preferido justo ao corpo.
do teu doce rosto descarado.
do sorriso ora atrevido, 
ora envergonhado.
da coleção de guardanapos rabiscados.
dos teus olhinhos verdes,
pululantes,
encantados:
o mundo inteiro deseja saber...

H. L. C.


da série 'carbono 14'

quinta-feira, 26 de maio de 2016

explicitude ou poema das sete chaves

aí já não vejo.
beijo.
abraço
os braços do amparo.
mordo as regras e exceções.
busco a ti, a mim.
a sílaba!
mas, enfim, quem é esta apodítica pessoa
a fazer minha dosimetria?:
o 'Ser e o Nada';
'a náusea';
a ´idade da razão';
'A morte na alma';
'sursis';
'Caminhos da liberdade'...
aí já não vejo.
fervo!
estou como na ponte de Ambrose Bierse.
é que o impossível não se pode exigir.
estou em ti.
e ainda assim,
neste quase-inverno
sou tão Camus.

H. L. C.

da série 'carbono 14'

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Когда небо упало на землю...."

Quando o céu caiu ao chão
deu-se 'la stravaganza'
e do ventre d`um anjo delicado
brotaram milhares de bilhões
de flores azuis
formando tapete infinito
por onde os pezinhos do mesmo anjo
passaram a flutuar
naquilo que já não era
nem céu
nem chão
era oração
um anjo de olhos verdes
de magro e pálido corpo feminino
respirando sonatas para violino
a brincar com carneirinhos brancos
na imensidão
do abrigo de uma folha de papel.

H. L. C.

da série 'carbono 14'





terça-feira, 24 de maio de 2016

L`église de la Madeleine

sob os teus sacros olhos verdes,
mais verdes e mais sacros
do que os de Mademoiselle Anne-Marie Louise d`Orleans,
nasciam os 28 degraus
da pequena gótica,
hoje clássica,
habitante da Place de la Concorde.
e teus sacros olhos verdes,
sob o teto da nave da igreja de Madalena
(intrigados com a figura de um  Napoleão,
entre Oriente e Ocidente,
sendo coroado pelo Papa Pio VII),
admiravam:
"uma igreja sem sino?"
"um templo romano?"

H. L. C.

da série 'seus suaves relatos de maio'